O eleitor acredita mais em partidos ou em quem está votando?

Por Paulo Sergio de Carvalho 05/01/2026 - 15:25 hs
Foto: PSC JORNALISMO VERDADE
O eleitor acredita mais em partidos ou em quem está votando?
O eleitor acredita mais em partidos ou em quem está votando?

A política brasileira vive, há alguns anos, um paradoxo evidente: os partidos seguem sendo peças centrais do sistema democrático, mas a confiança do eleitor neles é cada vez menor. Em contrapartida, cresce a personalização do voto, em que o cidadão deposita sua esperança muito mais na figura do candidato do que na sigla que ele representa. A pergunta que se impõe é direta: o eleitor acredita mais em partidos ou em quem está votando?

Pesquisas e resultados eleitorais recentes mostram que, no Brasil, o voto é majoritariamente personalista. O eleitor tende a escolher alguém que conhece, admira ou com quem se identifica — seja pelo histórico político, pelo discurso, pela atuação local ou até pela presença nas redes sociais. Em cidades do interior, essa lógica é ainda mais forte: o eleitor vota “em quem resolve”, “em quem está presente” ou “em quem já ajudou”, independentemente do partido.


Os partidos, por sua vez, enfrentam uma crise de identidade e credibilidade. Muitos deixaram de cumprir o papel de formadores de ideias, programas e lideranças, tornando-se, aos olhos do eleitor, meras legendas eleitorais, usadas como instrumentos para viabilizar candidaturas. A constante troca de partido por parte de políticos — sem maiores explicações ideológicas — reforça a sensação de que as siglas perderam coerência e propósito.

Isso não significa que os partidos tenham deixado de importar. Eles ainda definem tempo de televisão, acesso a recursos, alianças e estrutura política. No entanto, para o eleitor comum, esses fatores são secundários diante da percepção de caráter, competência e compromisso do candidato. Quando um político muda de partido e mantém sua base eleitoral, fica claro que o vínculo é pessoal, não partidário.


Ao mesmo tempo, essa lógica traz riscos. A fragilização dos partidos enfraquece a democracia, pois reduz o debate programático e estimula projetos de poder centrados em indivíduos, não em ideias coletivas. Sem partidos fortes, o eleitor passa a votar mais pela emoção do momento do que por propostas de longo prazo, o que pode gerar frustração e instabilidade política.

Por outro lado, o personalismo também é uma resposta legítima do eleitor a um sistema que falhou em representá-lo. Quando os partidos não entregam coerência, ética e resultados, o cidadão busca referências diretas em lideranças que demonstrem trabalho, proximidade e responsabilidade pública.


No fim das contas, o eleitor brasileiro, hoje, acredita mais em quem está votando do que no partido pelo qual ele concorre. O desafio para o futuro é reconstruir a credibilidade das siglas sem ignorar a importância das lideranças individuais. Uma democracia saudável precisa de ambos: partidos fortes, com identidade clara, e políticos comprometidos, que honrem o voto recebido. Sem isso, a confiança do eleitor seguirá depositada em pessoas — e não em projetos coletivos de país.